terça-feira, 29 de dezembro de 2009

FELIZ 2010


Vem mais um ano, mas não vem como dantes vinha. Outrora era a água do regato em tempo de graça de moça lavada.Tempo sem barreiras e com a ternura louca. Assim vinha o tempo feito ano novo. Assim vinha todo excitado como cavalo à solta. Vinha para namorar e dizer pieguices e para levantar voo com passos de valsa e de samba, de "Love me Tender" e de todos os outros que se entornavam na agilidade dos pés e no frenesim do coração. Asim vinha o ano para dizer amo-te e esperarei por ti até que me leves às estrelas. Para dizer que sou jovem e tudo em mim te namora e te ama e que subirei ao céu por ti e descerei ao sol para te derramar de claridade. Para te fazer perguntas tolas e responderes doidices de quem é novo. Como as do ano que trazia milagrosas promessas de amor azul. Tu dizias verde. Depois já não dizíamos. Bebíamo-nos na brasa dos olhos. Depois eram as passas e o champanhe, as badaladas do ano iniciático e o silêncio intenso das mãos tímidas, até doer de saudade. Ainda antes de desatadas. E um murmúrio nos ouvidos como um beijo.Tudo pretextos para dizer que éramos plantas sem cactos e que acreditávamos que não nos perderíamos. E que amar era o melhor do mundo porque ainda éramos crianças e só tínhamos pensamentos claros.

Assim vinham os anos que vieram. E assim hão-de vir todos os anos do futuro. Para os jovens que gostam de subir às estrelas e descer ao sol(que é uma coisa espantosa!) e entornar passos de dança com brasas nos olhos. Dizendo azul ou verde. Ou talvez vermelho, com tambor no coração e silêncios tímidos nas mãos até doer de saudade. Como a que me dói ainda e é tão boa...
Feliz 2010

terça-feira, 4 de agosto de 2009



















Mais uma década a somar, compadre. E a elas já nos habituámos. A vida e o seu fluir que a todos nos concede o direito de respirar enquanto as águas correm. Não te neguem os deuses as rosas que na voz e nas mãos sempre doaste generosas para encanto das avezinhas que em torno de ti rodopiavam radiosas. Outra ave mais renovada se apodera de ti toda marota. Ave das tuas asas. Água benta da tua água limpa. Cantarinho junto à fonte , com o sol a amanhecer. Caminhemos com essa aguarela de luz traquina, que nos remoça em cada sorriso. E não nos interroguemos. Há muito verde e azul que se derrama vigoroso na trepadeira da varanda dos olhos. Dos nossos ainda e dos dela tanto! Respiremos com serenidade. E enquanto a cor nos entra e a princesa saltita Matita, que entre outro “enta” e que a taça se eleve esfuziante.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Mar-(d)ia



Tens um mar inteiro e dividido. No teu nome um hífen indicia um dia matinal da ínsula graciosa. São leves os teus gestos e a tua voz soletra o Bojador embevecido onde já o céu se espelha depois dos medos e da dor. Salta do azul o golfinho radioso, de te saber de água. Saberia o poeta de ti o canto luminoso das palavras sábias? Quem te baptizou saberia o trilho da emborcação da água em ti derramada com lúcida inteireza? Tudo nos habita do que somos. Mereceremos o desígnio do destino de Delfos à Acrópole?
Os deuses ignoram as nossas ávidas inquietações e na mudez permanecem do mistério.
Mercês lhes dêmos por todos os dias que respiramos. E os parabéns pela claridade de estarmos vivos, Mar-(d) ia…

quarta-feira, 10 de junho de 2009

DIA DA RAÇA, DIA DA RITA !



Querida Rita,

Escrevo-te para te dizer que só podias ter nascido no Dia da Raça. Mais nenhum dia te assentaria que nem uma luva como este. Mulher vigorosa, destemida, Maria da Fonte desde menina, senhora do teu nariz e de ti mesma. Nasceste para triunfar e para gerar o menino mais lindo do meu coração (e olha que o meu coração é mesmo lindo e a modéstia é uma sensaboria), por quem derramei lágrimas de alegria, desde que soube que a semente tinha sido plantada na tua leira.

Ainda ontem eras menina em cima das dunas, tal como a Inês e a Joãozinha e a Marta e o Luís e a Sofia, todos agarrados à minha saia cor-de-rosa, extasiados com a nossa música e a nossa dança sem lobos, indiferentes ainda ao crescer voraz do tempo. E o mar estendia-se à nossa frente, num odor salgado que dilatava as narinas, numa superfície sedosa, de sedução vigorosa de azul e verde, com os moinhos mais ao longe, contentes de nós, fruindo aquele tempo onde o espaço era lúcido e inteiro.
Ainda ontem eu tinha a tua idade e tu pegavas na minha filhota ao colo, enquanto alimentavas a tua imaginação prodigiosa de menina inocente.
Escrevo-te para te dizer que estou a ficar bastante madura, que isto de velha é para quem não ri e não brinca. Além do mais, o espelho é mentiroso, pois só vê por fora e "quem vê caras não vê corações". É por isso que prefiro o espelho da Branca de Neve, o «olá» que fez as delícias do teu principezinho.
Que hei-de dizer-te que tu já não saibas, Ana Rita Machado?

Se eu fosse fada, pegava na varinha de condão do tempo e andava para trás e ficava no cimo das dunas contigo e com as outras cerejas verdinhas que tinham pernas e boca. E que bem dançavam e cantavam os frutos que fostes todos, no tempo de o ser. E que tempo preenchido e deslumbrante! Mas levava o meu zezito e a matildinha também e depois logo se via, que nos contos de encantar tudo é possível. E pedia também à tia Cinda que fizesse peixinhos da horta e os bolos dos quadradinhos que vocês devoravam como gatinhos esfomeados. Ou eram pássaros?

E repetiria as mesmas loucuras. Havia de pregar sustos à noite, juntamente com o teu pai e a Lídia, lencóis pela cabeça, uivando, grunhindo, rosnando, ladrando, sei lá... Havia de vos fazer mais versos e vocês cantá-los-iam fazendo trejeitos felizes, "meninos ladinos e mal comportados/ dizem-nos às vezes, são meios tarados/tarados sois vós, tarados sois vós, velhos e caducos/ somos os maiores, somos os maiores, grupo dos malucos!". Havia de levar o Castanheira e a viola..." A paz, lutaremos, ela é o nosso Ás/ nuclear não, nem que seja um electrão/, Portugal, Portugal não foi feito para explosão"e ainda, "Parecem bandos de pardais à solta/ os putos, os putos"... Lembras-te?

Ouço as vossas vozes daqui e canto convosco. E vejo. E tenho saudades de nós todos e da casa das Pedrinhas onde nos encolhíamos (éramos tantos!) para jogar às cartas ou para nos lambuzarmos com as delícias que a tua mãe cozinhava. Ou para rirmos como doidos, com apostas ainda mais doidas que nós...
Um dia contarás isto tudo ao Zé Pedro e farás com que ele me recorde sempre como a tia Isabel maluca. Eu era tão feliz e vocês tão tentadores e inocentes! E que imaginação prodigiosa a tua...Acho que a tua irmã me amou primeiro. Isso não importa. Tu fazes anos, minha Ana Rita, mãe do zezinho, meu menino lindo do coração e só isso me basta para te desejar as maiores felicidades do mundo. E convém não esquecer os parabéns. Também por ele.Também por ti.
Adoro-te.
Tia Isabel

terça-feira, 26 de maio de 2009

TEMPO DE SER



Inclino-me sobre a água
E vejo-me despida.
A mentira dói mesmo lavada
E o tempo de morrer é já amanhã.
Veloz e trágico é o tempo
Mas há papoilas ainda
Nos segredos dos rochedos
E as mãos são puras
Na loucura das manhãs.
Velida sou e louçana
E ainda busco o meu amigo
À beira do rio praia ou perigo
"Ai madre, moiro d'amores!"



terça-feira, 28 de abril de 2009

AINDA TEMPLO



Ainda templo, mãe,
a quente alegria
desse ventre,
concha limpa,
branco tempo,
onde de rosas
teu odor foi canto
e meu sustento.

Tenho água na saudade
e só não grito
para não acordar
o teu sono repousado
nesse cais estrelado
em que te habito.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

CHÁ D'ABRIL


Ah tragam-me um chá
Um chá urgente de menta
Ou pimenta preta
Ou cidreira ou tília
Um chá de sabor a terra
De eucalípto ou oliveira
Numa chávena de Abril.
Ah, tragam-me um chá
Com aroma a cravo
Também pode ser
Um chá em clave de Sol
Ou em mi(m) maior
Ah tragam-me um chá
De todas as maneiras
Com aroma verde
Em vaso de esperança
Também pode ser
Tenho sede
Ah tragam-me um chá
De aroma de maçã
Que o chá aquece
A alma que fenece
No frio deste Abril
Em que um cravo canta
Esganado na garganta.