quarta-feira, 20 de abril de 2011

PIETÀ



Acabada de chegar de Roma, mas ainda  lá, atordoada por um esmagamento  em espiral, despertado pela   monumentalidade majestática  carregada de memórias, molharam-se-me os olhos no Coliseu onde vi ressuscitados os gladiadores, as feras e os indefesos cristãos atirados para o circo, pátio de recreio dos instintos bárbaros que a humanidade persiste em exibir; extasiou-se-me o olhar com os templos, as  estátuas,  as pinturas; sobressaltei-me de alegria nas  Praças Navona, do Povo e de Espanha; colori-me de júbilo na Fontana de Trevi;  calou-se-me o coração junto da Pietà, na Basílica de S. Pedro. Fiquei vidrada naquela imagem, num hipnotismo doloroso. O que eu via ,para além da capacidade artística de quem a esculpiu, era o filho morto, um corpo adulto, numa atitude de desolação e de abandono, nos braços de uma mãe menina, impotente na sua doçura "cheia de graça", agasalhando o filho numa  resignação insuportável. Isso é que é dramático de ver, sentindo. Miguel Ângelo superou-se. O artista teve de descer à  interioridade mais cava  dos afetos, de se desdobrar em múltiplas dores para poder esculpir aquele quadro. 
O que eu vi naquela imagem foi o sofrimento de todas as mães do mundo captado de forma insuperável, porque insuportável na resignação. Um filho morto no colo da mãe. Um homem adulto nuns braços de uma mãe menina ainda protetora na sua resignação insuportável.
Acabada de chegar de Roma, aqui diante do computador, carrego o atordoamento de quem ainda tem de digerir o que o corpo e o espírito quase esgotaram, mas a Pietá não me sai dos olhos, ela e a árvore que deixei a vestir-se, diante da janela desta sala, e que se ataviou de folhos de verdura para me adoçar um outro olhar. O que é que a árvore tem a ver com a Pietà, perguntarão?
Esse é um segredo que guardo para mim, mas que pode pretextuar uma descoberta para o leitor.
Deixo-vos com a mãe e o filho, numa visão de singular piedade, neste quadro de quaresma.

17 comentários:

E.A. disse...

Ibel,

Já sentia tanta saudade.
Porque vi e senti, é talvez mais fácil compreender. Não me esqueci de deixar uma moeda na Fontana di Trevi para me assegurar do regresso.
Um beijinho muito grande

Miguel Loureiro disse...

Bem vinda e boa Páscoa.
Linkei

Anónimo disse...

Acabada de chegar de Roma, tiveste tempo de depurar em palavras, limpas e magníficas, a sensação, as sensações da ida a um lugar de referência da nossa cultura, mas de questionares o horrível por detrás do belo.
Percebo e subscrevo a inquietação do Coliseu, a Praça Navona cheia de cafés e esplanadas, onde Sophia gostava de tomar chá, o sufoco da Fontana de Trevi naquela estreiteza de rua. E o barulho duma cidade com esplendor e com tantas nódoas negras.
As culturas fazem-se à custa de muitos sofrimentos, mas as árvores...fazem-te os mimos

AC disse...

Ah, Roma...!
Ibel, vai desculpar-me, mas por ora o importante é que voltou. Fez muita falta, savia?
Seja bem-vinda!

Um abraço

antónio joão disse...

Acaba sempre por voltar esta alma branca e é uma delícia ler esta escrita. Não a tenho pressionado porque sei o quanto anda atarefada, mas nunca deixe de voltar, pode ser de Roma, mas vote, sim?

S. M. disse...

Ai que saudades, professorinha linda!
Gostei tanto de a ouvir na sesssão solene.Tudo o que escreve tem a sua cara.Adorei a sua Pietá!

JB disse...

Ibel,

Fico feliz com o seu regresso!
Agradeço muito as suas palavras.

Estas que aqui partilha sentem-se profundamente, é como se lá estivesse. O que transmite fá-lo de uma forma única, tão sentida, num olhar vidrado na obra mas que viaja pelo mundo, num dos mais belos sentimentos humanos. Esta forma de "esculpir" o que lhe vai na alma preenche-me e toca-me deveras profundamente.

Também lhe desejo uma doce e Feliz Páscoa!

Um enorme beijinho!

manuel disse...

Apaziguadora esta Pietá observada pelos seus olhos.Já estive perto dele e nunca consegui expressar o que agora transmitiu.
Muito obrigado.

AC disse...

Acalmado o grato sentimento do seu regresso (até escrevi "savia" no comentário anterior - hoje venho com mais calma.
De Roma guardo gratas recordações, ficando mesmo com a sensação de que é uma cidade muito grata para se viver. Mas é da sua viagem que devemos falar. E fiquei deveras satisfeito por ver o efeito produzido em si por toda aquela divina arte.
Talvez ainda seja tempo de se recompor, de arrumar as sensações. Mas o mais importante é que continua connosco.
Uma Feliz Páscoa!

Beijo :)

Anónimo disse...

Isabel, tenho a honra e um certo orgulho de gostares do que eu escrevo. Mas seria bom se conseguisses ler a tua própria escrita como se não fosses tu a autora. Perceberias melhor quanto ela é bela.
Por coincidência, estiveste em Roma na mesma altura que o Rodrigo, o meu filho. E vendo as mesmas coisas, em alguns casos.
Um abraço.
Daniel

disse...

Ibel,
Que texto magnífico. Cheio de sentimento e afecto (perdoe-me ainda não me habituei ao acordo ortográfico). Que maravilhosa descrição de um amor de mãe, inesgotável, do sofrimento da mulher que vê seu filho morto.
Porque sou Crente e hoje vivemos a celebração da Morte de Jesus, permita-me que dê um palpite para o desafio contido no penúltimo parágrafo: "mas a pietá não me sai dos olhos, ela e a árvore que deixei a vestir-se diante desta sala, e que se ataviou de folhos de verdura para me adoçar um outro olhar". Tal como a Morte de Jesus aconteceu para que pudesse haver Ressurreição, també a árvore perde a sua ramagem para vir de novo, com maior pujança a revestir-se de novos e mais verdes ramos. Oxalá tenha interpretado bem.
Beijinhos e votos de uma Santa Páscoa para si e para todos os seus.
Caldeira

Pedrasnuas disse...

Roma? Onde eu gostaria de ir em Agosto...ficará adiada,andarei mais perto... uma vez mais o sonho fica para depois...
Então trouxe-nos "Pietá"...de Miguel Ângelo...um génio!!!...É essa resignação que mexe...pois vejo as fotos e isso atordoa...pobre Mãe...um Filho morto nos braços é deveras chocante, uma dor que risca a alma...uma dor surda,incomensurável...desmedida...

Páscoa Feliz!

AC disse...

Isabel,
Desejo-lhe uma Feliz Páscoa!

Delfim Peixoto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Long Haired Lady disse...

minha mãe voltou a estudar logo apos a morte de meu pai, e em seus estudo eu ainda uma menina ela chegou com um livro lindo de historia da arte com a Pieta…isso me marcou muito!

Anónimo disse...

Feliz Páscoa, Professora do Coração!

Beijinho Primavera

Francisca e Mafalda

Margarida disse...

Partilhar um olhar ou múltiplos olhares, sobre algo que nos toca ou nos provoca, servindo-se da Arte da Palavra, além de um dom, onde operas, com grande mestria, é um gesto generoso e aberto.
Roma, é para nós, portugueses e europeus, a Cidade, A Civitas, O Fórum. A sua monumentalidade toca-nos, na medida em que nos transporta para as Origens. Entre tantos objetos de Arte, contigo, me fixo na grandeza da Pietá, pelas imensas emoções fortes, dolorosas mas , igualmente, alegres e esperançosas, que em nós, mulheres e mães, nos submergem na intensidade da VIDA que vivemos, que geramos e que acompanhamos, para dentro e para fora de Nós, na estrada infinita do Tempo: a eternidade.
Obrigada. Guida