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FELIZ NATAL, MENINO JESUS!

Que dizer de ti, Jesus que já não esteja dito? Ao menos, no Natal, retiram-te da cruz e retornas à pobreza da riqueza da tua criação: à luz das estrelas, à verdura do musgo, ao aconchego do burrinho que carregou contente o ventre quente de tua mãe, às ovelhas e aos pastores e ao curral onde também uma vaquinha com seu bafo te agasalhou do fino frio de Dezembro; à àgua das lavadeiras, e aos montes com neve, e ao mistério da noite. Não sei se houve pranto nas hora em que saíste, da doçura do mantnto mas na terra houve canto e no presépio sorris eternamente tranquilo, sem o calvário de espinhos e sem a pressa de cresceres para a quaresma eterna. Ao menos no Natal, retiram-te da cruz e dela todos fingem o esquecimento, até os das esmolas. Deixam-te ser menino, apenas menino de todos nós (e isto desde a era dos avós!) até que o novo ano chegue e as janeiras se cantem em dia de reis, por memória tua. Esquecem-te na cruz e reverberas de luz e faz-se a festa do teu nascimento com rabanadas de...

SENHOR PROFESSOR!

Ontem assisti a uma conferência, na minha escola, sobre Fernando Pessoa. Não sei se lhe deva chamar conferência, porque, na realidade, ao que eu assisti mesmo, foi a uma aula como já não assistia há muito tempo. E pasmei! Pasmei, não só pela sabedoria, mas pelo entusiasmo com que foi dita: entusiasmo nas palavras que resplandeciam na expressão; entusiasmo nas sílabas pronunciadas com a medida exacta e que poetizavam os gestos; entusiasmo no verdadeiro saber, que não precisa das máquinas, para o ser. Pasmei literalmente e fiquei como que de pena da, quando acabou. Ontem eu tive à minha frente um professor que quase fez emudecer as paredes e que, num auditório repleto de jovens e de alguns professores, fez da palavra Verbo. Ontem, Pessoa, na pessoa do Professor Doutor Mário Garcia, veio relembrar a importância da cultura e da Língua Portuguesa como Pátria, ao serviço de uma suprema missão civilizacional, tal como a via e se via o poeta. Ontem, Pessoa e Reis e Caeiro e mais o Campos marca...

LIVRO D' ÁGUA

Há um livro onde me lavo de brancura e de beleza com páginas imaculadas de asas de alta leveza. Há um livro cuja água é onda branca inquieta que não pára não descansa mas repousa às vezes mansa num voo de borboleta. Há um livro onde se deitam meus olhos amargurados e logo ficam lavados de espanto deslumbrados e claros de pureza. Este livro não é fácil de leitura ali ao pé mas basta virar a página para ver na sua aragem a limpeza que há na margem em doçura de maré.

Meu tempo de Natal

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Era no tempo em que havia pai natal que eu existia puro dia tão leve como a noite que crescia no sapatinho inocente no fogão do meu passado na árvore com estrelinhas e nas luzes que piscavam no pinheirinho enfeitado com lume do coração e anjos quase reais que comigo adormeciam a sonhar com pais natais. Era no tempo dos meus pais com a toalha de linho tão branca quase de neve tão pura como o menino que nas palhinhas deitado dormia tão sossegado junto à vaca e ao burrinho e no olhar de sua mãe (como a minha ela maria!) atenta e cheia de graça adorando enternecida a sua obra divina. Era no tempo em que havia pai natal que nada em mim se partia e tudo me estremecia numa doce avé-maria junto ao presépio encantado em que eu era a cinderela com um sapato à espera no fogão do meu passado.

Sonho nupcial

Ai se eu pudera Ser outra vez primavera Com a boca à tua espera Com rosas rubras de orvalho E fonte de água ao luar No lume do teu olhar! Ai meu amor tão eterno De pérolas e de rubis Esmeraldas que eu te dera Se eu fora primavera Na água pura a escorrer Do alto da minha serra! Mas a noite vem caindo Aos poucos em pé de dança E fica longe a lembrança Do tempo que foi e era O meu corpo a Primavera Serenata à tua espera Cabo da Boa esperança!

VERDADE VEGETAL

Seremos o sol do nosso dia, Depois da dor atormentada, Dor vagabunda e traiçoeira, Sem jeito ou maneira De ser pousada Onde o corpo arda. Seremos tantos quantas as vontades De querer mostrar às gentes Que a humilhação nos desmanda Mas que a força que nos comanda É a bússola que segue em frente. Ah, seremos como a torga Que o poeta quis ser, Músculo vegetal, junto à raiz do chão, Verdade de nascer e de morrer.

ROSTO

Éramos muitos no meio dos cardos Todos feridos de fúria e de fogo Mas tardávamos os gestos no silêncio E adiávamos o golpe das espadas. Anoitecia lentamente nos espelhos Onde um ou outro rosto se olhava Na miragem de um vulcão incandescido. Doía a noite. Doía o dia . Doíam os ponteiros do relógio Em cada trovoada que tardava. Doíam os sarcasmos Doía a humilhação Doía a combustão. Tudo me doía, minha mãe, No rosto que sorria.