Querida Rita, Escrevo-te para te dizer que só podias ter nascido no Dia da Raça. Mais nenhum dia te assentaria que nem uma luva como este. Mulher vigorosa, destemida, Maria da Fonte desde menina, senhora do teu nariz e de ti mesma. Nasceste para triunfar e para gerar o menino mais lindo do meu coração (e olha que o meu coração é mesmo lindo e a modéstia é uma sensaboria), por quem derramei lágrimas de alegria, desde que soube que a semente tinha sido plantada na tua leira. Ainda ontem eras menina em cima das dunas, tal como a Inês e a Joãozinha e a Marta e o Luís e a Sofia, todos agarrados à minha saia cor-de-rosa, extasiados com a nossa música e a nossa dança sem lobos, indiferentes ainda ao crescer voraz do tempo. E o mar estendia-se à nossa frente, num odor salgado que dilatava as narinas, numa superfície sedosa, de sedução vigorosa de azul e verde, com os moinhos mais ao longe, contentes de nós, fruindo aquele tempo onde o espaço era lúcido e inteiro. Ainda ontem eu tinha a tua ida...