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SAUDADE

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V em descendo uma saudade Do que fui e não provei Saudade de ter amado O quanto à vida não dei. Saudade de minha alma Ave de sonho a voar Quem me dera ter as asas Onde pudera m'achar. Saudade de mim criança Junto ao mar a baloiçar Uma dança ou talvez trança E meu pai a m'empurrar. Saudade de ter morrido Na menina que fui lá Um brinquedo de boneca Que me esqueci de guardar.

ESTIO À BEIRA-FRIO

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Sinto no frio da água E no outono da folha O Inverno ch egado. Um certo desalento Um certo desagrado E uma paixão no mesmo assento. Porque será ? É agora o tempo Do crepitar da brasa E do silêncio recolhido No calor do livro. É tempo de carpir E de despir a árvore A folha desbotada. Mas se é lisa a fêmea vegetal Cobre-se de folhagem O chão E a fria paisagem Esquenta a emoção Da miríade miragem. O vento geme nos beirais E dos confins do céu Não há sinais de asas. A chuva é cântaro Mas crepita o lume E a mão espevita Lascivamente o livro. A página levanta a saia Num sorriso de catraia E faz-se estio à beira-frio.

Velas e rosas apaziguadas.

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Fui lá. Hoje. Só hoje. Sem atropelos. Sem multidões. Sem chuva. Deixei flores cor-de -rosa. Já lá havia as que a Maria colocara.Tudo limpíssimo. Tudo simples. Pus os círios. Alguns. Acendi-os. Li os nomes: Maria Améla Antunes Coelho Martins; José Antunes Lopes; Guilherme Antunes Lopes; Abílio Antunes Lopes; Maria do Carmo Antunes Lopes; Sérgio Miranda da Silva. Faltava um. E é Antunes.E é Martins. Ainda não o mandei gravar. Uma certa relutância. Até hoje. Para te ter mais cá. Erro meu. Está lá a tua mãe. E é Martins. E é Antunes. Nunca tinha pensado nisso. Mas hoje sim. E os teus irmãos e o teu marido. Por isso é tempo de te nomear com a palavra gravada na lápide, junto dos que tanto amaste e choraste, quando se foram, muito antes de ti. Sobretudo ela. Como eu. Deixei lágrimas. Por ti , pelo pai, pela madrinha, pela avó Amélia (que pena não a ter conhecido!), cega, mas com as tais mãos que bordavam mistério. Voltaste ao ventre e nunca tinha pensado nisso.Vim apaziguada.

Outono e é tão cedo!

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O destino é incerto mas a hora certa. Breves somos e falecem nos jardins as rosas Com a descida da luz mais cedo. O verão voltará mas não seremos já tão altos E o Outono nos inclina para as folhas magoadas Que dos ramos belos se despiram. A folhagem jaz por terra. O banco solitário aguarda a água. Um calor qualquer nos aquece Antes da noite. Mas é tarde já E é tão cedo.

Terra mais Linda!!!!

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Nunca tinha entrado no silêncio. Um silêncio intocável com agudas vozes de aves felizes. A baía estava alí, oferecia-se aos olhos tão necessitados de apaziguamento.Era a baía do silêncio onde o Manel, amigo da minha filha, nos tinha levado. Ele queria que víssemos um sítio onde em miúdo costumava acampar para que compreendéssemos o porquê de tanto amor. A entrada parecia um portão de uma quinta"avance, pode entrar". Fomos descendo de carro até ao espectáculo do espanto da água e do verde e daquelas vozes batidas por asas. Que mistério era aquele? Que silêncio distinto dos outros se demorava ali, num namoro entre o terreno e o divino? Ou era a miragem do eterno, tal a espiritualidade que se respirava naquele deslumbramento de verdes que a água reflectia? Apetecia-me uma manta para me estender de olhos virados para o bosque onde os pássaros se satisfaziam em sinfonias sedosas. Apetecia-me aquele silêncio, mas curiosamente o meu marido falava, falava"ca...

BARRELA À ALMA

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Vou tentar um tempo de repouso. Sem telejornais. Sem jornalistas. Sem políticos. Sem comentadores políticos. Sem ministros da treta. Sem Felgueiras e Isaltinos. Sem blogs. Quero saturar-me de azul estendido e de água mimética. Boas Férias para os meus queridos leitores e para todos que estejam tão saturados de «sujidade» quanto eu. Vou purificar-me. Fiquem bem, sim?

LÁ!!!!!!!!!!!

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PROMETO QUE VOU CONTAR. SÓ NÃO SEI QUANDO. PARA JÁ AINDA LÁ ESTOU.  QUARENTA ANOS DEPOIS VOLTEI LÁ. SEI QUE PEGUEI O TEMPO NOS MEUS BRAÇOS NUMA RESPIRAÇÃO VIBRANTE DE ENTORPECIMENTO. COM DESVELO. COM PUDOR. COMO O PRIMEIRO BEIJO. AH, O PRIMEIRO BEIJO! UMA MÁQUINA FRATERNA CAPTOU A VIBRAÇÃO DA EMOÇÃO. ELA CONHECE-ME.