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"Ai minha mãe, menininha"

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Dobram os sinos e a tarde esfria quase glacial e muda como tempo de morrer. Agitam-se corpos atirados para a azáfama mercantil do gasta e desgaste de haver natal e tudo isto me traz descida em mim uma tristeza de fazer mal. Bethânia e Caetano cantam oração de minha mãe menininha e pousam-se-me os olhos hoje mais verdes no varandim da saudade. Ai minha mãe minha mãe menininha... ecoam as vozes suaves pela casa do meu ser em trambolhões de lágrimas e o pinheiro pisca com luzes sem luz de nada haver hoje em mim de Natal. Ai minha mãe minha mãe menininha... Canta Dona Canô nessa doçura abençoada com o olhar de minha mãe assim velhinha ela também quando a onda se fez da cor da sombra. Canta Bethânia Caetano canta canta dona Canô a dor desse canto. Ai minha mãe!

ESPERANDO MEU AMIGO

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Menina minha pátria maresia com salitre no rosto encandescido dorme comigo que minha mãe já foi... e estou sozinha. Menina amor Traz o passado das romarias De San simion de Vale de Prados e uma canção de candeias a arder. Menina galega flor galga as marés e traz-me abraços do meu amigo debaixo das avelaneiras floridas onde me bailo fermosa em cós de corpo velido Eu esperando meu amigo. Eu esperando meu amigo.

CARONTE

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São de pedra as horas e o vinagre morde a boca dos profetas. Talvez um dia um barco... Mas o tempo é duro e as abelhas fervem no pântano. Na cruz,  Deus! Na penumbra da terra os barqueiros têm os mastros quebrados. Não podemos partir -dizem- Mas Caronte aguarda o peixe miúdo para a larga barca s deuses sacrificados na de palavras vãs. (Pai, por que me abandonaste?)

FELIZ DIA, MÃE!

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Querida mãe Ainda continuam as saudades e os soluços sufocados no travesseiro na hora de dormir. Fazem- se de fontes as águas dos meus olhos quando te escuto os passos.Ouço no corredor o teu andar miudinho, a entrar de veludo no quarto da Ana para não a perturbares nos estudos. O eco da tua voz sacode-me no arfar da noite e as estrelas apagam-se nesse mistério de silêncio em que tudo fala de ti e nada dizes. Ou és tu que escreves nestas mãos saudosas? Sabes, fui a Milhazes à tua escola e à procura das Britos. Lá estavam elas, entradotas, a abraçarem a tua belinha e gastámos o tempo a falar do passado como necessitadas de pão. Fui ao Eirogo à procura daquele paraíso onde o pai era a "estrela da companhia". Só silêncio e ruína, mas a mesma sensação de afago e de fogo. Bonito o Eirogo! Passeei no silêncio dessas cinzas e sentei-me contigo naquela nossa árvore. Recordas como te chamei com palavras magoadas? O tempo chegou a parar. Ficar ali para sempre! Outros têm parti...

SAUDADE

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V em descendo uma saudade Do que fui e não provei Saudade de ter amado O quanto à vida não dei. Saudade de minha alma Ave de sonho a voar Quem me dera ter as asas Onde pudera m'achar. Saudade de mim criança Junto ao mar a baloiçar Uma dança ou talvez trança E meu pai a m'empurrar. Saudade de ter morrido Na menina que fui lá Um brinquedo de boneca Que me esqueci de guardar.

ESTIO À BEIRA-FRIO

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Sinto no frio da água E no outono da folha O Inverno ch egado. Um certo desalento Um certo desagrado E uma paixão no mesmo assento. Porque será ? É agora o tempo Do crepitar da brasa E do silêncio recolhido No calor do livro. É tempo de carpir E de despir a árvore A folha desbotada. Mas se é lisa a fêmea vegetal Cobre-se de folhagem O chão E a fria paisagem Esquenta a emoção Da miríade miragem. O vento geme nos beirais E dos confins do céu Não há sinais de asas. A chuva é cântaro Mas crepita o lume E a mão espevita Lascivamente o livro. A página levanta a saia Num sorriso de catraia E faz-se estio à beira-frio.

Velas e rosas apaziguadas.

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Fui lá. Hoje. Só hoje. Sem atropelos. Sem multidões. Sem chuva. Deixei flores cor-de -rosa. Já lá havia as que a Maria colocara.Tudo limpíssimo. Tudo simples. Pus os círios. Alguns. Acendi-os. Li os nomes: Maria Améla Antunes Coelho Martins; José Antunes Lopes; Guilherme Antunes Lopes; Abílio Antunes Lopes; Maria do Carmo Antunes Lopes; Sérgio Miranda da Silva. Faltava um. E é Antunes.E é Martins. Ainda não o mandei gravar. Uma certa relutância. Até hoje. Para te ter mais cá. Erro meu. Está lá a tua mãe. E é Martins. E é Antunes. Nunca tinha pensado nisso. Mas hoje sim. E os teus irmãos e o teu marido. Por isso é tempo de te nomear com a palavra gravada na lápide, junto dos que tanto amaste e choraste, quando se foram, muito antes de ti. Sobretudo ela. Como eu. Deixei lágrimas. Por ti , pelo pai, pela madrinha, pela avó Amélia (que pena não a ter conhecido!), cega, mas com as tais mãos que bordavam mistério. Voltaste ao ventre e nunca tinha pensado nisso.Vim apaziguada.