Orfeu fala a Eurídice
Aproximo a minha mão da travesseira
para dela levantar a tua nuca
com meus olhos fito a tua boca
flor de botão em tentação.
Vermelho fica, pois, meu coração
cacho maduro de macia cerejeira.
Suave, o movimento do teu peito,
tépido, o ardor do teu arfar,
e teus lábios, carne viva de cereja,
são doçura e paixão do mesmo jeito.
Emerge, da tua fronte, o teu olhar
e serves-me o amor numa bandeja!
Descem à terra deuses de verdade
laborando o amor que não morreu
enrolado no tom verde da saudade
vestes de pária, de andarilho,veste de Orfeu ,
e o teu peito recolhido junto ao meu
é um mar imenso de paz e serenidade.
(No inferno te busco, sendo céu
nas labaredas ardemos tu e eu).
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AMOR SONHADO
Não sei se exististe Ou se te amei assim Mas sei que te sonhei Por todos os cantos Onde o meu amor podia Ser o deslumbramento de te ver. Descia pelo eirado E chegava ao roseiral Onde vinhas trazer-me o sol Num livro de versos Ainda era dia e já tardavas (Que tarde de tarde tão tarde!) Descia pelo eirado E havia a vinha e o rosmaninho Na borda do portal E um banco de pedra. Era a hora das mãos E do sorriso inocente dos silêncios Num livro de versos Onde nos guardavas em segredo Enquanto as águas corriam. Descia pelo eirado E trazia o coração aos saltos Rente ao muro agitado Até que uma sombra escorregava Pelo calor do portal velho E tu aparecias com o teu olhar De veludo ou de cetim Com um livro de versos Onde nos beijávamos Com vogais abertas De olhos fechados. Não sei se exististe Ou se te amei assim Mas sei que te sonhei Por todos os cantos Onde o meu amor podia Ser o deslumbramento de te ver. E era tudo tão real Na leira desse passado Que ainda desço o eir...
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