| Do monte até à fonte | |
Do ventre sagrado dos montes
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da mina de que venha, escorrendo
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por um sulco de terra húmida, molhada ,
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por um chão de pedra rolada, lavada ,
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lágrima constante, não gemendo ,
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arrastando raizes e sementes
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não cuidando de saber quais são as gentes
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a quem mate a sede ou lave as frontes
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Mais abaixo irá depois chegar, pingando
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numa taça de pedra, e vai ficando
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calmamente, aguardando
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que pelo menos uma mão
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gentilmente a vá colhendo ,
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e a sede de boca que houver
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que venha para a sorver
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e a louvar, bebendo.
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Aqui chama-se fonte, pois então,
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numa gruta ou num caramanchão
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com ares que lhe dão de monumento
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sem faltar a pedra da carranca
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com forma de uma deusa ou de uma fera
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e o friso de uma vinha ou de uma hera ,
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mostrando lá pousada a pomba branca
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que recorde uma guerra ou um evento !
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será de tragédia ou de glória
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o nome com que fica para a história
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de amantes e seus amores ou desamores
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na sombra do que foram seus destinos
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ou insignes pensadores e escritores
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em odes deixadas como hinos
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cantos de pena de um poeta eminente
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rendilhando um epitáfio comovente
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onde o sol, o céu, o mar, os ventos
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se envolvem em louvores ou em lamentos.
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AMOR SONHADO
Não sei se exististe Ou se te amei assim Mas sei que te sonhei Por todos os cantos Onde o meu amor podia Ser o deslumbramento de te ver. Descia pelo eirado E chegava ao roseiral Onde vinhas trazer-me o sol Num livro de versos Ainda era dia e já tardavas (Que tarde de tarde tão tarde!) Descia pelo eirado E havia a vinha e o rosmaninho Na borda do portal E um banco de pedra. Era a hora das mãos E do sorriso inocente dos silêncios Num livro de versos Onde nos guardavas em segredo Enquanto as águas corriam. Descia pelo eirado E trazia o coração aos saltos Rente ao muro agitado Até que uma sombra escorregava Pelo calor do portal velho E tu aparecias com o teu olhar De veludo ou de cetim Com um livro de versos Onde nos beijávamos Com vogais abertas De olhos fechados. Não sei se exististe Ou se te amei assim Mas sei que te sonhei Por todos os cantos Onde o meu amor podia Ser o deslumbramento de te ver. E era tudo tão real Na leira desse passado Que ainda desço o eir...
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