quarta-feira, 24 de maio de 2017

terça-feira, 14 de maio de 2013

Solidão

a solidão como ausência é uma ferida instalada. anda por dentro dos dias vagarosa. descai lentíssima para a música da sombra.

Mif

Caravaggio- o grande representante italiano do estilo barroco

Colinas

as colinas são a noite nos rochedos a poisar nos seus segredos.
sobre o mar uma laranja estoira de luz.
beijam-se amorosamente nas águas do poente.
não há vício mais puro nem perfeito que estas bocas fundidas de fogo e liquidez azul.


segunda-feira, 1 de abril de 2013


Páscoa com  Regaço !

 

Domingo de Páscoa em ambiente famílar. Espaço acolhedor e quente de afetos, apesar da chuva intensa. Cristo entrou casa dentro, por volta das três da tarde, pela mão de uma freira muito simpática nos gestos e nas palavras. Que pena esta mulher  não ser padre, pensei...E cá para os meus botões também lamentei  que, mesmo depois de ressuscitado, Cristo viesse numa cruz, cravejado de pregos, ainda que enfeitado de orquídeas...Podia vir feito menino, como sonhava Caeiro... ou homem feliz, depois do castigo hediondo...

E não é que veio? Veio em forma de menina, imaginem,! Uma menina de rosto suave, olhar sonhador e doce, trazida pela mão da diretora da associação Regaço Cat, Drª Luísa Moreira, tia do meu genro. Bem arranjada, pose elegante, gestos delicados, a Sara era uma filha de homens menores, mas que a associação Regaço acolheu desde tenra idade. A ela e ao irmão. É tratada como família.

Tem onze anos a Sara, anda no balet, gosta muito de ciências.... e de ternura. Aliás, a Sara é a ternura. Basta olhá-la ,sentir-lhe o veludo do rosto, a neve da pele, a luz do olhar um pouco turvo e magoado, estigmatizado por um passado terrível.

Apaixonei-me pela Sara e ela por mim, julgo...! Andámos aos afetos e conversámos muito, à mistura com  brincadeira condimentada de risos e palhaçadas, com outras duas avezitas traquinas...

E não é que o amor, a única explicação possível dos bosques onde as aves se acolhem, trouxe-me o significado real de Cristo ressuscitado?

Um dia destes a Sara vem passar um fim de semana comigo e não a vou deixar escapar desta morada luminosa que é coração. Entrou? Fica, pois então! E até rima, o que condiz com o poema todo que é a Sara.

Ah, bendito seja o amor!  Bendita Páscoa com Jesus no regaço...

 

Parabéns,  Luísa  Moreira e associação Regaço Cat.

  

 

 

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

RENASCER



















Adoro bonecos antigos e o mistério insondável dos seus olhos. O tempo do encantamento permanece neles imutável, enchendo de tempo o tempo.Tive alguns e não sei como partiram. Foram os amigos de longos desabafos, nas horas das quimeras azuis. Falava com eles, como seres cuja alma efervesce. Subia-me um pudor tímido, quando alguém nos apanhava nas nossas intimidades inocentes. Os meus pais sorriam e sei que gostavam. Mas havia vergonha, mesmo assim. A minha mãe amolecia de água o seu olhar. E vinha sempre o grande abraço, reduto de aconchego, passaporte para a ternua. A minha irmã não tinha pachorra para aquilo. Preferia os cowboys.Tínhamos os sonhos trocados. Apenas isso.Não sei definir bem o motivo deste desabafo. Sei apenas que a menina de bibe, a belinha que fui, acordou, depois de ter recebido uma carta de boa hora. Fiquem tão felizes como eu, se puderem.



PS. Escrevi este texto no dia 9 de Setembro.

sábado, 23 de julho de 2011

Almálialusa.


















A devoção numa voz
com as guitarras gemendo
as talhas do seu caixão
que em nós ficou doendo.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

PIETÀ



Acabada de chegar de Roma, mas ainda  lá, atordoada por um esmagamento  em espiral, despertado pela   monumentalidade majestática  carregada de memórias, molharam-se-me os olhos no Coliseu onde vi ressuscitados os gladiadores, as feras e os indefesos cristãos atirados para o circo, pátio de recreio dos instintos bárbaros que a humanidade persiste em exibir; extasiou-se-me o olhar com os templos, as  estátuas,  as pinturas; sobressaltei-me de alegria nas  Praças Navona, do Povo e de Espanha; colori-me de júbilo na Fontana de Trevi;  calou-se-me o coração junto da Pietà, na Basílica de S. Pedro. Fiquei vidrada naquela imagem, num hipnotismo doloroso. O que eu via ,para além da capacidade artística de quem a esculpiu, era o filho morto, um corpo adulto, numa atitude de desolação e de abandono, nos braços de uma mãe menina, impotente na sua doçura "cheia de graça", agasalhando o filho numa  resignação insuportável. Isso é que é dramático de ver, sentindo. Miguel Ângelo superou-se. O artista teve de descer à  interioridade mais cava  dos afetos, de se desdobrar em múltiplas dores para poder esculpir aquele quadro. 
O que eu vi naquela imagem foi o sofrimento de todas as mães do mundo captado de forma insuperável, porque insuportável na resignação. Um filho morto no colo da mãe. Um homem adulto nuns braços de uma mãe menina ainda protetora na sua resignação insuportável.
Acabada de chegar de Roma, aqui diante do computador, carrego o atordoamento de quem ainda tem de digerir o que o corpo e o espírito quase esgotaram, mas a Pietá não me sai dos olhos, ela e a árvore que deixei a vestir-se, diante da janela desta sala, e que se ataviou de folhos de verdura para me adoçar um outro olhar. O que é que a árvore tem a ver com a Pietà, perguntarão?
Esse é um segredo que guardo para mim, mas que pode pretextuar uma descoberta para o leitor.
Deixo-vos com a mãe e o filho, numa visão de singular piedade, neste quadro de quaresma.