quarta-feira, 10 de junho de 2009

DIA DA RAÇA, DIA DA RITA !



Querida Rita,

Escrevo-te para te dizer que só podias ter nascido no Dia da Raça. Mais nenhum dia te assentaria que nem uma luva como este. Mulher vigorosa, destemida, Maria da Fonte desde menina, senhora do teu nariz e de ti mesma. Nasceste para triunfar e para gerar o menino mais lindo do meu coração (e olha que o meu coração é mesmo lindo e a modéstia é uma sensaboria), por quem derramei lágrimas de alegria, desde que soube que a semente tinha sido plantada na tua leira.

Ainda ontem eras menina em cima das dunas, tal como a Inês e a Joãozinha e a Marta e o Luís e a Sofia, todos agarrados à minha saia cor-de-rosa, extasiados com a nossa música e a nossa dança sem lobos, indiferentes ainda ao crescer voraz do tempo. E o mar estendia-se à nossa frente, num odor salgado que dilatava as narinas, numa superfície sedosa, de sedução vigorosa de azul e verde, com os moinhos mais ao longe, contentes de nós, fruindo aquele tempo onde o espaço era lúcido e inteiro.
Ainda ontem eu tinha a tua idade e tu pegavas na minha filhota ao colo, enquanto alimentavas a tua imaginação prodigiosa de menina inocente.
Escrevo-te para te dizer que estou a ficar bastante madura, que isto de velha é para quem não ri e não brinca. Além do mais, o espelho é mentiroso, pois só vê por fora e "quem vê caras não vê corações". É por isso que prefiro o espelho da Branca de Neve, o «olá» que fez as delícias do teu principezinho.
Que hei-de dizer-te que tu já não saibas, Ana Rita Machado?

Se eu fosse fada, pegava na varinha de condão do tempo e andava para trás e ficava no cimo das dunas contigo e com as outras cerejas verdinhas que tinham pernas e boca. E que bem dançavam e cantavam os frutos que fostes todos, no tempo de o ser. E que tempo preenchido e deslumbrante! Mas levava o meu zezito e a matildinha também e depois logo se via, que nos contos de encantar tudo é possível. E pedia também à tia Cinda que fizesse peixinhos da horta e os bolos dos quadradinhos que vocês devoravam como gatinhos esfomeados. Ou eram pássaros?

E repetiria as mesmas loucuras. Havia de pregar sustos à noite, juntamente com o teu pai e a Lídia, lencóis pela cabeça, uivando, grunhindo, rosnando, ladrando, sei lá... Havia de vos fazer mais versos e vocês cantá-los-iam fazendo trejeitos felizes, "meninos ladinos e mal comportados/ dizem-nos às vezes, são meios tarados/tarados sois vós, tarados sois vós, velhos e caducos/ somos os maiores, somos os maiores, grupo dos malucos!". Havia de levar o Castanheira e a viola..." A paz, lutaremos, ela é o nosso Ás/ nuclear não, nem que seja um electrão/, Portugal, Portugal não foi feito para explosão"e ainda, "Parecem bandos de pardais à solta/ os putos, os putos"... Lembras-te?

Ouço as vossas vozes daqui e canto convosco. E vejo. E tenho saudades de nós todos e da casa das Pedrinhas onde nos encolhíamos (éramos tantos!) para jogar às cartas ou para nos lambuzarmos com as delícias que a tua mãe cozinhava. Ou para rirmos como doidos, com apostas ainda mais doidas que nós...
Um dia contarás isto tudo ao Zé Pedro e farás com que ele me recorde sempre como a tia Isabel maluca. Eu era tão feliz e vocês tão tentadores e inocentes! E que imaginação prodigiosa a tua...Acho que a tua irmã me amou primeiro. Isso não importa. Tu fazes anos, minha Ana Rita, mãe do zezinho, meu menino lindo do coração e só isso me basta para te desejar as maiores felicidades do mundo. E convém não esquecer os parabéns. Também por ele.Também por ti.
Adoro-te.
Tia Isabel

18 comentários:

AC disse...

Risos, mar, crianças...
Olhos atentos e protectores, um acorde de viola, uma saia cor-de-rosa aglutinadora de mil brincadeiras temperadas com sonhos...
Petiscos saciadores dum apetite infindável...
A felicidade das pequenas coisas, o pleno festejar da vida!

Mas, entretanto, eles cresceram...

Fidalgo disse...

Ainda ontem éramos meninos e já estamos capazes de dar outros meninos ao mundo e capazes de criar e manter responsabilidades familiares e empresariais... A vida corre depressa e o amanhã está aqui à porta. Parabéns Rita e mantém a força que faz de ti uma pessoa tão especial!

Mar-ia disse...

Que direi eu com tantos frutos, tantos sabores, através de caminhos trilhados de lonjura?
Ana Rita, segura o embalo e faz com ele outras danças de roda.
Que é assim a vida, uma roda, a girar, ora de lua nova ou de lua cheia. Uma roda giradora.
Parabéns à menina. Que ser menina é crescer a vida. A idade é de fora. É bom tê-la e senti-la.
Parabéns

As amigas da prof. disse...

Parabéns,Ana Rita! Também adoramos a tua «tia maluca» e não podíamos ter uma professora que ensinasse tão bem e fizesse das aulas uma festa.E ela adora o seu «netinho».Muitas felicides.

Anónimo disse...

Parabéns à aniversariante e à tia, pela beleza de mais um texto cheio de belas recordações onde abre o seu coração de menina.
Felicidades,Ana Rita, mulher de fibra, pelo que se deduz.

Alda

Delfim Peixoto disse...

Bom, Ana Rita, loirinha, Machado, pois, "M" e "ZM"... e até parece que o Mundo não é uma aldeia... a minha primita, dos meus primitos, que infelizmente o Tempo nos afasta, a "obra" o exige.
Pois, lembro-me ainda da Ana Rita nos bancos da escola de S. Lázaro, muito viva e sempre simpática, quando lá ia visitar os estagiátrios... e depois, claro, uma Mulher. Ooops, agora lembrei-me eu de quando era menos antigo e o pai da Ana Rita me dava explicações de Mat.. e do namoro da "M" com o "ZM", ali para os lados de Ferreiros... A Ibel e o Prof Fidalgo devem ser desse tempo... E que bom a primita Rita ter um pimpolho. Xiii já quase somos centenários!

PARABÉNS ANA RITA, ( nestes dias costumo também "parabenizar" os respectivos pais, pois sem eles.. nadinha de nada, não é?)

Pronto, Beijos para a Rita em particular e para todos os que a amam em geral!
Para a Ibel, o do costume, cheio de ternura por ser assim, tal como é!

Gracinda disse...

Para além dos parabéns tudo está dito pela Ibel.Bela viagem pela vossa infância e por esse tempo em que tentamos dar-vos o melhor. E demos.Os frutos hoje bem maduros estão à vista.
Um abração de parabéns
Tia Cinda

estrelinha disse...

Os laços que se geram, puros, sinceros, entre a família que se escolhe, são, sem dúvida, aqueles que mais nos marcam. Era ainda um despontar de rosa quando me foste ver pela primeira vez (tenho a foto em que tu e a Inês me olham com ternura e me protegem!)...a vida seguiu, redonda e quente, entre odores de sal, mar, viola e areias finas do Norte, preenchendo a nossa infância com vigor!
"Com a prenda do padrinho, três lápis agora eu tenho...verde, amarelo, azul marinho, encarnado, preto e castanho...", hoje, são outros os cantos, mas as mesmas vozes, cristalinas e maduras, a que se juntaram outras, numa partilha sincera,tornando a família mais extensa e rica!
Parabéns, querida Rita, desta "prima" mais nova que te quer bem.
Ana

Cris disse...

Parabêns encantadora Rita.
Quando o dia do nosso nascimento torna-se tão inspirador como o seu,é porque escreves uma linda história.Deus te abençoe.
Lia minha flor,és única no mundo.
Um abraço bem demorado.

Anónimo disse...

Ana Rita,
Hoje, ficamos deliciadas saboreando os momentos de uma infância feliz, cheia de recordações ternurentas, que imaginamos deve guardar como um tesouro.Daquelas que revisitamos, olhando o horizonte e que nos revigoram, sempre que ânimo nos falta ou tão somente porque queremos reviver momentos felizes, que nos alimentam a alma.
Neste aniversário, desejamos que muitos mais momentos felizes se juntem à memória e que os possa saborear, como mel nos lábios.
Feliz aniversário.
Beijinho grande.

Mafalda e Francisca

Isabel disse...

Que belo texto sobre dois R (Raça e Rita). Ao lê-lo, o tempo desenrolou-se e voltou à infância, como nos contos.Imaginei a Ibel com a saia cor-de-rosa a fazer diabruras às crianças. O tempo volta a enrolar e hoje são mais crianças que podem disfrutar da alegria contagiante, da "tia" especial. Parabéns Rita!
Isabel

Cristina Ribas disse...

A história, mais do que contada, vivida pela Ibel! E uns PARABÉNS que são realmente vida!

Parabéns Rita!
Parabéns Ibel!

Aurora Araújo disse...

Querida Rita,
Embora não sejamos muito íntimas, ao saber que fazes anos hoje pela nossa amiga comum Isabel Fidalgo e sendo tu a mulher que o meu querido ex-aluno e colaborador da associação dos ex-alunos do D. Maria escolheu ( e muito bem, segundo sei!) para a vida, não posso deixar de te dar os parabéns e de te desejar muitos anos de

Anónimo disse...

Como é possível resumir desta forma a nossa maravilhosa infância? Recordei, ouvi, cheirei um tempo antigo como se fosse hoje! E que tempo…
As cantigas, as correrias, as brincadeiras e comidas, é tão bom recordar!
Minha tia, tão tia e madrinha, MUITO OBRIGADA! Pelo texto e por teres preenchido a minha infância de fantasia.
Um brinde à viola do Castanheira e aos “peixinhos da horta” da tia Cinda.
Obrigada à “professora Aurora” que tanto oiço falar, ao meu primo e a todos os que escreveram.
Ao resto da família também… Ana e outra madrinha Isabel P que tanto gosto também…
Rita M

Anónimo disse...

Claro que ao meu querido Fidalgo um beijo muito especial também...

Uma das privilegiadas da Saia Cor-de-Rosa! disse...

Por muito que as vidas não se cruzem como desejariamos, este elo vai unir-nos sempre! Esta foi a NOSSA infância, plena e feliz e de tão intensa chega para que os laços perdurem... Ainda que atrasado, um beijinho sincero de parabéns, com sabor à inocência daquela que será sempre só NOSSA!

Beijinhos!!!!!!!!!!!

A felizarda de violas e peixinhos,

Marta Castanheira
(Aqui neste blog, "miau-miau":) )

E madrinha, a saia cor-de-rosa há-de pairar sempre sobre nós... Não só como saia mas como referência dos tempos que foram! E foram EXCELENTES, obrigada por tudo, tu sabes...

Anónimo disse...

Como eu gostaria de a ter conhecido há mais tempo, professora.As aulas acabaram, portanto digo-lhe agora que os meus pais me vão tirar da Dona Maria por causa do mau ambiente mas eu irei visitá-la e levo-a comigo sabendo que nunca me será possível encontrar outra professora tão alegre, tão plural em tudo e com tanto brio profissional.
Beijinhos.

Cati

MaesDoc disse...

Foi também nesta data, há 25 anos, que o João Nuno, num dia quentíssimo do Verão que se anunciava, inundou de ternura e amor dois ansiosos corações( o meu e de minha mulher). Mais tarde chegou a Andreia, a caçulita.
"Se eu fosse fada, pegava na varinha de condão do tempo e andava para trás e ficava no cimo das dunas com eles... para sempre"
Manuel Estrada